Archive for the ‘Sérgio Cohn’ Category

três formas de amor

19/04/2017

MAR
o mar é a fera em si
corpo revolto
imenso, impossível
de abarcar,
demanda toda atenção.
mas quem dele não tira
o olho, se perde da
razão: em fúria
é indomável,
em calmaria labirinto
(azul sob azul,
nenhum deserto
é tão sucinto).

ESTRELA
a estrela é a fera em nós
o desejo anfíbio
de mutar do que somos
a outro –
então mergulho,
desrazão.
a estrela não retorna
amor, silente
é a própria expressão
do não.

SELVA
a selva é a fera nos outros
a soma de desejos
que faz o seu jogo –
ritmos de corpos
devorando-se
sob a aparente calmaria.
cada delícia é
uma armadilha:
úmida de vida,
transforma quem a ama
em mais um.

Sérgio Cohn

mnemo.

04/11/2011

Há um resíduo de futuro
no vento, fotograma ante-
cipado, montagem de fragmentos
induzindo à cena. Como
aquela árvore se curvando com-
placente aos invisíveis pesos,
como o mormaço
predizendo chuva. Repito,
há um canto anterior
a qualquer canto, uma réstia,
um eco primeiro, como um som
que ressoa por dentro de cada
palavra, como todo gesto se
desenha e apaga, então
novamente. Há o revés,
o diáfano, o termo, beleza
posta e perdida, o desen-
cadeamento, assim
como a sede do vapor
por uma forma, assim
como tudo retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória.

Sérgio Cohn