Archive for the ‘Tony Primo’ Category

silvo breve

25/02/2019

A palavra não cabe na boca
A língua coça
A garganta rouca
A palavra treslouca
Salta cospe solta
Tudo que minhoca cabeça

A pedra não cabe na mão
Os dedos pulsam
O sangue talha
A pedra cascalha
ira raiva
Todo o meu estertor

A seta retesa no arco
Os olhos estuporados
Os nervos a ferver
O peito arfante
Sibila brada brama
Flecha ardente infame

Getúlio Maia (musicada por Tony Primo, no CD Nó de Si)

rapper cute

01/02/2019

não há dispositivo da lei
que não me eletrocute
neste país do futuro
cabeça dinossauro
pança de mamute
a lei que é escrita à pena
é exercida a bate-boot
vai com o povo pras ruas
mas nada há que o escute

são tantos os destinos
mas nos falta o azimute
neste continente de fartura
pança dinossauro
cabeça de mamute
o povo vai pras ruas
sem sair do facebook
vejo o protesto na tv
e deixo o sangue só no mute

os sonhos dos meus filhos
são tratados a gás, a chute
nesta demo-ditadura
mandíbula dinossauro
adaga de mamute
não vejo a roupa do rei
mas não há voto que permute
muda a coroa do trono
mas continuamos em Beirute

Getúlio Maia (musicada por Tony Primo, no CD Nó de Si)

página

25/09/2017

Ouvi e vi o oceano,
A inquietude das marés,
o barulho do meu coração
na página do dia sobre a terra.

Respiro um grande amor perdido
e lama em dias de chuva.

Se lembra quando a alegria
desfilava nas ruas de nossas pernas;
do clarão de lua em nossas janelas;
dos meus segredos em seu caderno?

Enquanto os passos não se atrevem,
é frio, é sem graça a minha sorte.

Eu sei, eu sei, há sempre um voo pássaro
uma nova página.

As estrelas dormem uma a uma
e não será de vez em quando
elas me lembram as cenas das ondas do mar
que vem e vão.

Eu só preciso viver coisas novas
e ficar em paz com meus planos.

O sol acaba de nascer bem longe daqui
É o meu novo endereço
para o que eu queira, para o que eu possa,
tenho tanta coisa para conquistar.

Tony Primo

cenário

15/08/2016

No jardim
O anúncio da primavera
Abelhas, cinderelas, personagens, o lugar.
Com o amanhecer as casas se multiplicam,
O café (água de cheiro),
O sol nos vértices do céu.

Os olhos grandes da criança,
Imaginando o gosto da maçã.
A cantoria é majestosa:
Dos bichos, das folhas ao vento,
Inspirando uma ensaiada orquestra.

E da janela, eram dela aqueles olhos
Que dão à tarde a morada
Que eu sonhava um dia ver.
A gaivota, nas páginas da história,
Voa a cantar no horizonte
Com seu modo de trinar.
Um buquê borboletas,
Um arco-íris que se vê passar.
E todo um ritual se repete:
As flores sempre dançarinas
Agradecem o sabor do vento.

As folhas secas chegam lentas ao cenário,
São as lágrimas dos galhos
Que se arrastam nos quintais.

Tony Primo