Archive for the ‘Waly Salomão’ Category

ars poética – operação limpeza

27/11/2015

            Assi me tem repartido extremos, que não entendo…
                                                                (Sá de Miranda)

I
SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembleia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.

II
Súbito
Sub-reptícia sucurijuba
A reprimida resplandece
Se meta-formoseia
Se mata
O q parecia pau de braúna
Quiçá pedra de breu
Quiçá pedra de breu
CINTILA
Re-nova cobra rompe o ovo
Da casca velha
SIBILA

III
SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrimas

Waly Salomão

brejões

09/10/2015

vem vindo que vem vindo um vento
que vem vindo um vento sem pé nem cabeça
que nem antena de louva-a-deus detecta
vem vindo que vem vindo um vento

Waly Salomão

uma orelha

09/01/2015

...o poeta resta no mundo
com raros talismãs,
algumas malícias,
parcas mandingas.
Ele vai de peito aberto
para a clareira,
quase sem amuletos,
quase sem boias.
É se afogando,
se desafogando:
escrever assim,
viver assado…

…o autor, na verdade, é falível,
é vulnerável, e sobretudo, ele
não detém a última palavra, a
chave final sobre a propulsão
que um poema pode despertar
num eventual leitor

…como se sabe,
o leitor é querido e livre:
pode ler assim ou assado…

Waly Salomão

olho de lince

08/12/2014

quem fala que sou esquisito hermético
é porque não dou sopa estou sempre elétrico
nada que se aproxima nada me é estranho
                                                       fulano sicrano beltrano
seja pedra seja planta seja bicho seja humano
quando quero saber o que ocorre à minha volta
ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
experimento invento tudo nunca jamais me iludo
quero crer no que vem por aí beco escuro
me iludo passado presente futuro
                                                                  urro arre i urro
viro balanço reviro na palma da mão o dado
                                                    futuro presente passado
tudo sentir total é chave de ouro do meu jogo
é fósforo que acende o fogo de minha mais alta razão
e na sequência de diferentes naipes
                                            quem fala de mim tem paixão

Waly Salomão

teu nome mais secreto

25/10/2010

Só eu sei teu nome mais secreto
Só eu penetro em tua noite escura
Cavo e extraio estrelas nuas
De tuas constelações cruas

Abre-te Sésamo! – brado ladrão de Bagdá

Só meu sangue sabe tua seiva e senha
E irriga as margens cegas
De tuas elétricas ribeiras,
Sendas de tuas grutas ignotas

Não sei, não sei mais nada.
Só sei que canto de sede dos teus lábios
Não sei, não sei mais nada.

Waly Salomão

devenir, devir

16/07/2009

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.

Waly Salomão

Lançado em 16/02/2009