Archive for the ‘Wislawa Szymborska’ Category

tem aqueles que

02/10/2015

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.
Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.
Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.
Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.
E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.
Às vezes os invejo
– por sorte isso passa.

Wislawa Szymborska

mapa

07/09/2015

    Plano como a mesa
    na qual está colocado.
    Debaixo dele nada se move
    nem busca vazão.
    Sobre ele —meu hálito humano
    não cria vórtices de ar
    e deixa toda a sua superfície
    em silêncio.

    Suas planícies, vales, são sempre verdes,
    os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
    e os mares, oceanos, de um azul delicado
    nas margens fendidas.

    Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
    Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
    acariciar os polos sem luvas grossas.
    Com um olhar posso
    abarcar cada deserto
    junto com o rio logo ali ao lado.

    Selvas são assinaladas com arvorezinhas
    entre as quais seria difícil se perder.

    No Ocidente e Oriente
    acima e abaixo do equador —
    assentou-se um manso silêncio.
    Pontinhos pretos significam
    que ali vivem pessoas.
    Valas comuns e súbitas ruínas
    não cabem nesse quadro.

    As fronteiras dos países mal são visíveis
    como se hesitassem entre ser e não ser.

    Gosto dos mapas porque mentem.
    Porque não dão acesso à dura verdade.
    Porque, generosos e bem-humorados,
    estendem-me na mesa um mundo
    que não é deste mundo.

Wisława Szymborska

para o meu poema

13/07/2015

Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.
Em uma hipótese pior,
apenas lido.
Terceira possibilidade –
escrito, de fato,
mas logo jogado no lixo.
Você pode se valer ainda de uma quarta saída –
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.

Wislawa Szymborska

coação

15/09/2014

Comemos a vida de outros para viver.
A falecida costeleta com o finado repolho.
O cardápio é um necrológio.
Mesmo as melhores pessoas
precisam morder, digerir algo morto,
para que seus corações sensíveis
não parem de bater.
Mesmo os poetas mais líricos.
Mesmo os ascetas mais severos
mastigam e engolem algo
que, afinal, ia crescendo.
Custa-me conciliar isso com os bons deuses.
Talvez crédulos,
talvez ingênuos,
deram à natureza todo o poder sobre o mundo.
E é ela, louca, que nos impõe a fome,
e ali onde há fome
finda a inocência.
À fome se juntam logo os sentidos:
o paladar, o olfato, o tato e a visão,
pois não é indiferente quais iguarias
e em quais pratos.
Até a audição participa
no que sucede, pois à mesa
não raro há conversas alegres.

Wislawa Szymborska

sob uma estrela pequenina

11/08/2014

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.

Wislawa Szymborska

a mão

29/07/2013

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.

Wisława Szymborska

abc

27/05/2013

Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.

Wisława Szymborska

As três palavras mais estranhas

13/07/2009

Quando eu falo a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
 
Quando eu falo a palavra Silêncio,
o destruo.
 
Quando eu falo a palavra Nada,
cria algo que nenhum não-ser comporta. 
 
Wislawa Szymborska (poeta polonês)

Lançado em 18/01/2008