Archive for the ‘Wislawa Szymborska’ Category

possibilidades

18/05/2020

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

Wisława Szymborska

no aeroporto

22/04/2020

Correm um para o outro de braços abertos,

exclamam ridentes: Até que enfim! Enfim!
Ambos vestidos com agasalhos de inverno,
gorros de lã,
cachecóis,
luvas,
botas,
mas só para nós.
Porque um para o outro estão nus.

Wislawa Szymborska

amor à primeira vista

25/03/2020

Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela esta certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não lembram —
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?

— mas conheço a resposta.

Não, não lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto ao meio.

Wislawa Szymborska

o dia de amanhã – sem nós

10/02/2020

Espera-se que a manhã seja fria e enevoada.
Do oeste,
nuvens de chuva começarão a se deslocar.
A visibilidade será fraca.
As estradas escorregadias.

Gradualmente, ao longo do dia,
sob a influência da alta pressão do sul,
é possível que haja céu claro local.
Porém, por causa do vento forte e variável em rajadas,
podem surgir tempestades.

À noite,
melhora do tempo em quase todo o país,
apenas na região sudeste
há possibilidade de precipitações.
A temperatura cairá significativamente,
em compensação, a pressão aumentará.

O dia de amanhã
promete ser ensolarado,
embora, para os ainda vivos,
seja útil um guarda-chuva.

Wislawa Szymborska

visto do alto

16/12/2019

Um besouro morto num caminho campestre.
Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre.
Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza.
O horror da cena é moderado,
o âmbito estritamente local, da tiririca à mente.
A tristeza não se transmite.
O céu está azul.

Para nosso sossego, os animais não falecem,
morrem de uma morte por assim dizer mais rasa,
perdendo – queremos crer – menos sentimento e mundo,
partindo – assim nos parece – de uma cena menos trágica.
Suas alminhas dóceis não nos assombram à noite,
mantêm distância,
conhecem as boas maneiras.

E assim esse besouro morto no caminho,
não pranteado, brilha ao sol.
Basta pensar nele a duração de um olhar:
parece que nada de importante lhe aconteceu.
O importante supostamente tem a ver conosco.
Com a nossa vida somente, só com a nossa morte,
uma morte que goza de forçada precedência.

Wisława Szymborska

anotação

11/03/2019

A vida – única possibilidade
para se cobrir de folhas,
tomar fôlego na areia,
voar com asas;

ser um cão
ou acariciar seu pelo quente;

diferenciar a dor
de tudo que não é ela;

imiscuir-se nos acontecimentos,
perder-se nas paisagens,
procurar o menor dentre os erros.

Ocasião excepcional
para lembrar por um momento
do que se falava
junto à lâmpada apagada;

e uma vez pelo menos
tropeçar numa pedra,
molhar-se em alguma chuva,
perder as chaves na grama
e seguir com a vista uma fagulha ao vento;

e incessantemente não saber
algo de importante.

Wisława Szymborska

tem aqueles que

02/10/2015

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.
Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.
Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.
Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.
E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.
Às vezes os invejo
– por sorte isso passa.

Wislawa Szymborska

mapa

07/09/2015

    Plano como a mesa
    na qual está colocado.
    Debaixo dele nada se move
    nem busca vazão.
    Sobre ele —meu hálito humano
    não cria vórtices de ar
    e deixa toda a sua superfície
    em silêncio.

    Suas planícies, vales, são sempre verdes,
    os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
    e os mares, oceanos, de um azul delicado
    nas margens fendidas.

    Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
    Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
    acariciar os polos sem luvas grossas.
    Com um olhar posso
    abarcar cada deserto
    junto com o rio logo ali ao lado.

    Selvas são assinaladas com arvorezinhas
    entre as quais seria difícil se perder.

    No Ocidente e Oriente
    acima e abaixo do equador —
    assentou-se um manso silêncio.
    Pontinhos pretos significam
    que ali vivem pessoas.
    Valas comuns e súbitas ruínas
    não cabem nesse quadro.

    As fronteiras dos países mal são visíveis
    como se hesitassem entre ser e não ser.

    Gosto dos mapas porque mentem.
    Porque não dão acesso à dura verdade.
    Porque, generosos e bem-humorados,
    estendem-me na mesa um mundo
    que não é deste mundo.

Wisława Szymborska

para o meu poema

13/07/2015

Na melhor das hipóteses,
meu poema, você será lido atentamente,
comentado e lembrado.
Em uma hipótese pior,
apenas lido.
Terceira possibilidade –
escrito, de fato,
mas logo jogado no lixo.
Você pode se valer ainda de uma quarta saída –
desaparecer não escrito
murmurando satisfeito algo para si mesmo.

Wislawa Szymborska

coação

15/09/2014

Comemos a vida de outros para viver.
A falecida costeleta com o finado repolho.
O cardápio é um necrológio.
Mesmo as melhores pessoas
precisam morder, digerir algo morto,
para que seus corações sensíveis
não parem de bater.
Mesmo os poetas mais líricos.
Mesmo os ascetas mais severos
mastigam e engolem algo
que, afinal, ia crescendo.
Custa-me conciliar isso com os bons deuses.
Talvez crédulos,
talvez ingênuos,
deram à natureza todo o poder sobre o mundo.
E é ela, louca, que nos impõe a fome,
e ali onde há fome
finda a inocência.
À fome se juntam logo os sentidos:
o paladar, o olfato, o tato e a visão,
pois não é indiferente quais iguarias
e em quais pratos.
Até a audição participa
no que sucede, pois à mesa
não raro há conversas alegres.

Wislawa Szymborska