fortaleza da primavera

15/07/2020

As pontes estão queimando
Quem atravessará as chamas
para oferecer um copo d’água
aos que ardem?

Diante da fogueira
faces expostas de vergonha.
A fumaça intoxica.

Levante antes que seja tarde.
Levante antes que o inferno
queime o quintal.

Marília Kubota

a mesa

13/07/2020

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresco como o pão.

João Cabral de Melo Neto

o lamento das coisas

10/07/2020

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada,
O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa…
Da transcendência que não se realiza…
Da luz que não chegou a ser lampejo…

E é, em suma, o subconsciente aí formidando
Da natureza que parou, chorando,
No rudementarismo do Desejo!

Augusto do Anjos

genocídio

08/07/2020

Não cabe
no espelho
a face mestiça
da Pátria
relegada
a relhos
e correntes.
Expatriados
em navios negreiros
velamos os mortos,
pétalas de lótus
negro.
Asfixia por gravata,
bala perdida,
bala endereçada
oitenta vezes.
Somos girassóis
em campos de lírios
e sangramos
oitenta vezes.
Sangramos
na morte
e depois da morte.

Márcia Friggi

música brasileira

06/07/2020

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, xiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.

Olavo Bilac

torna a definir o poeta…

03/07/2020

TORNA A DEFINIR O POETA OS MAUS MODOS DE OBRAR
NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE
NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.

Que falta nesta cidade? …………………. Verdade
Que mais por sua desonra …………….. Honra
Falta mais que se lhe ponha ………….. Vergonha.

O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onda falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? …………. Negócio
Quem causa tal perdição? ……………… Ambição
E o maior desta loucura?………………… Usura.

Notável desaventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doce objetos? ……. Pretos
Tem outros bens mais maciços? ….…. Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos? …. Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? …….. Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas ? …..……. Guardas
Quem as tem nos aposentos? …………. Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos,

E que justiça a resguarda? …….…….… Bastarda
É grátis distribuída? ………………….…….. Vendida
Que tem, que a todos assusta? ………. Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia? ……………….……. Simonia
E pelos membros da Igreja? …………… Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha? ……… Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos Frades há manqueiras? ….……. Freiras
Em que ocupam os serões? …….….…. Sermões
Não se ocupam em disputas? ….…….. Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou? ……….………… Baixou
E o dinheiro se extinguiu? ……………… Subiu
Logo já convalesceu? ……………………… Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode? ……………….….. Não pode
Pois não tem todo o poder? …………… Não quer
É que o governo a convence? ………… Não vence.

Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

Gregório de Matos

poesia

01/07/2020

Não dizer tudo.

Mas agora essa ausência
neva
flocos de ferro
em brasa.

Todos os já disparados
contra a lataria de todos
os poemas.

E mesmo que escreva fascismo
um risco espirala
sobre o próprio
balbucio

porque tudo
aconteceu
ao lado.

Lígia Dabul

genipapo absoluto

29/06/2020

Como será pois se ardiam fogueiras
Com olhos de areia quem viu
Praias, paixões fevereiras
Não dizem o que Junhos de fumaça e frio

Onde e quando é genipapo absoluto
Meu pai, seu Tanino, seu mel
Prensa, esperança, sofrer prazeria
Promessa, poesia, Mabel

Cantar é mais do que lembrar
É mais do que ter tido aquilo então
Mais do que viver do que sonhar
É ter o coração daquilo

Tudo são trechos que escuto, vêm dela
Pois minha mãe é minha voz
Como será que isso era este som
Que hoje sim, gera sóis, dói em dós

Aquele que considera
A saudade de uma mera contraluz que vem
Do que deixou pra trás
Não, esse só desfaz o signo
E a rosa também

Caetano Veloso

quem?

26/06/2020

Para que serve esta labuta errônea
do coração ao que jamais se doma?

Quem dá partida à trama do desejo
que se distende ao acaso e ao ensejo

de um domador que dorme com a loucura?
E quem amarra os nós dessa costura

num tecido que o próprio tempo esgarça
como se feito em linhas de fumaça?

Salgado Maranhão

a palavra final

24/06/2020

Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil,
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.

Lêdo Ivo