agora

18/10/2019

É hora
de amolar a foice
e cortar o pescoço do cão.

— Não deixar que ele rosne
nos quintais
da África.

É hora
de sair do gueto/eito
senzala
e vir para a sala
— nosso lugar é junto ao Sol.

Adão Ventura

agenda

16/10/2019

Noite profunda. Sono profundo.
Esperança rasa.

Cacaso

desacontessências

14/10/2019

desaconteci
(mentavelmente)
tudo acontece para
desacontecer em si

anoitece para amanhecer
nascer viver crescer morrer
tecer escrituras em silêncios
semânticas em pura seda

desconstruir óbvios
reconstruir amálgamas
experimentos ordinários
holografias d’almas

Luis Turiba

haikai agridoce (poesia iii)

11/10/2019

a flor de lótus, o mel de abelha, a borboleta exótica…
ainda que cuidemos do nosso jardim de sonhos
no vinagre dos dias haverá sol para o cravo do amanhecer?

Filinto Elísio

vida e obra

09/10/2019

Você sabe o que Kant dizia?
Que se tudo desse certo no meio também
Daria no fim dependendo da ideia que se
Fizesse de começo

E depois – para ilustrar – saiu dançando um
Foxtrote

Cacaso

círculo vicioso

07/10/2019

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– “Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como um eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

– “Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume.

– “Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

– “Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta azul e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

Machado de Assis

desassossego

04/10/2019

Escrever é o cego
na feira
faça sol ou chuva faça
entoando seu martelo
ou
a goteira a noite inteira
pingapingando
no meu cerebelo

Escrever é prelo
Eterna espera
De ver impresso
o íntimo caderno
poeira de anos
e eu ainda pensando
em ser moderno

Escrever é renegar
O superego
Escavar até chegar
ao desapego

Escrever é
grego antigregário
desassossego

Getúlio Maia

constatando

02/10/2019

era verdade
os urubus passeiam mesmo entre
os girassóis

Cacaso

o planeta na mesa

30/09/2019

Ariel gostou de ter escrito seus poemas.
Eram de um tempo relembrado
Ou de algo visto que o agradara.

Outros feitos do sol
Eram agrura e tumulto
E o arbusto maduro retorcido.

Seu ser e o sol eram um só
E seus poemas, embora feitos de seu ser,
Não eram menos feitos do sol.

Que perdurassem não era importante.
O importante era que portassem
Algum traço ou caráter,

Uma afluência, mesmo quase imperceptível,
Na pobreza de suas palavras,
Do planeta do qual faziam parte.

Wallace Stevens

qualquer voz

27/09/2019

Agora, ali, era muito antes. Consegue
imaginar a voz da moça de outro dia,
caída na rua, mas ainda respirando? Coisas
postam-se entre elas mesmas, interrompidas.
Onde começa e onde termina o olhar?
Outro verbo sem presente: morrer. Eu não
disse lembrar — imaginar foi o que eu disse.
Consegue? A voz dela, alguma voz que
você nunca ouviu, qualquer voz. Antes de
alguma coisa, ali. O olhar talvez comece
antes das pálpebras se abrirem. E acaba?
Não acaba.

Ricardo Aleixo