procuro uma alegria

29/12/2017

Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
– flor do cotidiano –
o voo de um pássaro
e de uma canção

Carlos Drummond de Andrade

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lamentosas queixas de uma donzela enamorada

27/12/2017

Escuta, mau cavaleiro,
sofreia a rédea um instante;
não fatigues as ilhargas
de teu pobre Rocinante.

Olha, falso, que não foges
de serpente fera e má,
porém de uma cordeirinha
que de ovelha longe está.

Tu zombaste, monstro horrendo,
da donzela mais formosa
que Diana viu em seus montes
e Vênus na selva umbrosa.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

Tu levas – furto impiedoso! –
nessas garras encerrada
a alma inteira de uma humilde,
pobre, terna enamorada.

Levas três toucas de enfeite
e umas ligas, que adornavam
pernas tão alvas e lisas
que ao mármore se igualavam.

E levas dois mil suspiros
tão ardentes que, parece,
queimariam três mil Troias,
se três mil Troias houvesse.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

De teu escudeiro Sancho
se endureça o peito tanto
que não saia Dulcineia
nunca mais de seu encanto.

Da culpa de que és culpado
tenha triste a pena e as dores,
que aqui muitas vezes pagam
justos pelos pecadores.

Que as mais finas aventuras
se te volvam em tristezas,
em sonhos teus passatempos,
em desdéns tuas firmezas.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

De Sevilha até Marchema,
desde Loja até Granada,
de Londres à Inglaterra
tenha de falso nomeada.

Quando baralho jogares
fujam-te reis e valetes,
às mãos não te cheguem ases
nem vejas damas ou setes.

Que sangres, quando te cortes
os calos dos calcanhares
e não saiam as raízes
quando os dentes arrancares.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

Miguel de Cervantes

mensagem

25/12/2017

Todas as coisas foram pesquisadas,
Conferidas, catalogadas em séries,
Não resta mais nenhum prodígio
No seio da Terra, no seio do ar.
O mundo é um bocejo.
Entretanto (como explicar?)
Chega de manso, infiltra-se em nossas paredes
De casa, de carne,
Impressentida essência
(Melodia, memória)
E nos subjuga: Natal.

Carlos Drummond de Andrade

à procura do natal

22/12/2017

Caminharei em busca do presépio
A noite inteira, meu Senhor.
Não haverá, porém, nenhuma estrela,
Para guiar meus passos.
Todas as estrelas estarão imóveis
No céu imóvel.

Caminharei em busca do presépio
A noite inteira, meu Senhor.
As estradas, porém, estarão solitárias,
Tudo estará adormecido,
As luzes das casas, apagadas,
As vozes dos peregrinos terão morrido
na distância sem fim.

Caminharei ansioso à tua procura,
Mas estarei tão atrasado,
O tempo terá caminhado tão na minha frente,
Que me será difícil encontrar teu recanto humilde.
Cansado, encontrarei grandes cidades,
Mas a tua cidade, Senhor, terá desaparecido.

Muitos se rirão de mim, sabendo que te procuro.

Não haverá nenhuma estrela
Para mostrar o lugar em que te encontras.
Todas as estrelas estarão imóveis no céu…

Augusto Frederico Schmidt

quem deixará, do verde prado umbroso

20/12/2017

Quem deixará, do verde prado umbroso,
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,

por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?

Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo.

Miguel de Cervantes

isso ainda

18/12/2017

o corpo quer ser livro
por isso
ainda o sinto vivo

Yassu Noguchi

poema da despedida

15/12/2017

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

os remédios da paixão

13/12/2017

Quem menoscaba meus bens?
            Desdéns.
Quem aumentas meus queixumes?
           Ciúmes.
Que me prova a paciência?
           Ausência.

Assim, na dor sem clemência
nenhum remédio se alcança,
pois me matam a esperança
desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
           Amor.
Quem manda os tormentos meus?
           Os céus.
Quem, desta glória, o assassino?
            Destino.

Assim, receio e imagino,
que esse estranho mal me mate,
pois me dão feroz combate
o amor, os céus e o destino.

Quem mudará a minha sorte?
           A morte.
O bem do amor, quem o alcança?
           Mudança.
E seus males, quem os cura?
           Loucura.

Assim, não será cordura
querer curar a paixão
quando os seus remédios são
morte, mudança e loucura.

Miguel de Cervantes

amanhecer na matéria bruta

11/12/2017

Espaço
de
aço
alça
aponta
volta
e
fecha
forma
pronta
de
graça
contando
o
segredo
de
tanta
força
em
dobrar
a
fogo
chapa
cega
abrindo
no
ângulo
oposto
espaço
para
amanhecer
na
matéria bruta.

Amílcar de Castro

a cavalgada

08/12/2017

A lua banha a solitária estrada…
Silêncio… Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada…

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando;
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada…

E o bosque estala, move-se, estremece…
Da cavalgada o estrépito só aumenta
Perde-se após no centro da montanha…

E o silêncio outra vez soturno desce…
E límpida, sem mácula, alvacenta,
A lua a estrada solitária banha.

Raimundo Correia