um dia

28/07/2017

um dia o espelho
me devolverá um velho
tomara que eu valha
o tempo que o tempo
levou no trabalho
de esculpir a minha cara

um dia o espelho
me devolverá o vazio
quem sabe eu já esteja
morrendo de frio
e quem chegar perto
pra ver se respiro
vai ver pelas marcas
que virei um vampiro

Ricardo Silvestrin

o seu olhar

26/07/2017

o seu olhar lá fora
o seu olhar no céu
o seu olhar demora
o seu olhar no meu

o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu

onde a brasa mora
e devora o breu
onde a chuva molha
o que se escondeu

o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu

o seu olhar agora
o seu olhar nasceu
o seu olhar me olha
o seu olhar é seu

o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu

Arnaldo Antunes/Paulo Tatit

a ascensorista

24/07/2017

a primeira vez que vi teresa
foi hoje pela manhã quando
desci de elevador

quando vi teresa de novo
foi hoje pela tarde quando
subi de elevador

da terceira vez não vi mais nada
desci de escada

Lucas Viriato

da amizade

21/07/2017

Não é pelo saber nele encerrado,
mas sim pelo sabor da língua antiga

– qual num palimpsesto culinário,
na língua nova a língua traduzida:

os nomes próprios são especiarias,
Tibério, Caio Lélio, Cipião,

são como mariscos pescados nas ilhas,
aura e sal conservados no som –,

que a leitura do Da Amizade,
de Marco Túlio Cícero, o romano,

portanto é menos uma aprendizagem,
que um pequeno rito gastronômico:

é como se comêssemos um prato
envolto em naufrágios e segredos

– os cozinheiros estão todo mortos,
os livros, porém, guardam a receita.

Francisco Bosco

estrela, estrela

19/07/2017

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer

Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é

No corpo nu
Da constelação
Estás, estás
Sobre uma das mãos

E vais e vens
Como um lampião
Ao vento frio
De um lugar qualquer

É bom saber
Que és parte de mim
Assim como és
Parte das manhãs

Melhor, melhor
É poder gozar
Da paz, da paz
Que trazes aqui

Eu canto, eu canto
Por poder te ver
No céu, no céu
Como um balão

Eu canto e sei
Que também me vês
Aqui, aqui
Com essa canção

Vitor Ramil

teresa

17/07/2017

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Manuel Bandeira

gênese II

14/07/2017

no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância

Gregório Duvivier

odara

12/07/2017

Deixa eu dançar pro meu corpo ficar odara
Minha cara minha cuca ficar odara
Deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara
Pra ficar tudo joia rara
Qualquer coisa que se sonhara
Canto e danço que dará

Caetano Veloso

o infinito

10/07/2017

Volto sempre a esta encosta solitária
e gosto até da sebe que me encobre
em boa parte o extremo do horizonte.
Porém, sentado e olhando, eu infindáveis
espaços muito além e sobre-humanos
silêncios e as quietudes mais profundas
formo ao pensar, a ponto de que o peito
por pouco não se alarma. E ouvindo folhas
farfalharem ao vento, esta voz logo
comparo com aqueles infinitos
silêncios, e me assoma a eternidade
e as eras que passaram e esta nossa,
viva e ruidosa. Então meu pensamento
se afoga nessa imensidade toda:

e é doce naufragar num mar assim.

Giacomo Leopardi
Outra versão:
https://balsamobenigno.wordpress.com/2013/04/15/infinito/

quer-se o prazer

07/07/2017

Quer-se o Prazer – antes –
Depois – não sentir Dor –
Depois – alguns Calmantes
Para lhe contrapor –

Depois – adormecer –
Depois – se bem prouver
Ao seu Inquisidor
O Luxo de morrer –

Emily Dickinson