Posts Tagged ‘pq amanhã é sábado’

soneto

07/08/2020

Uma palavra, outra mais, e eis um verso,
Doze sílabas a dizer coisa nenhuma.
Esforço, limo, devaneio e não impeço
Que este quarteto seja inútil como a espuma.

Agora é hora de ter mais seriedade,
Senão a musa me dará o não eterno.
Convoco a rima, que me ri da eternidade,
Calço-lhe os pés, lhe dou gravata e um novo terno.

Falar de amor, oh pastora, é o que eu queria,
Mas os fados já perseguem teu poeta,
Deixando apenas a promessa da poesia,

Matéria bruta que não cabe no terceto.
Se o deus frecheiro me jogasse a sua seta,
Eu tinha a chave pra trancar este soneto.

Antonio Carlos Secchin

eu, militante, me confesso

31/07/2020

O que eu sei sobre a causa que me carcome
O tempo e os nervos é de orelhada. O que não
Sei não dou conta de procurar saber nem mesmo

Por alto. Discordo de tudo com veemência e estri-
Dência para não ter que refletir sobre o que ouço
Ou leio. Empáfia poderia ser o nome do país de

Onde eu nunca saí de todo. Trago de lá a mania
De andar olhando só para a frente (para trás?) &
Praticamente todas as solidões do mundo.

Ricardo Aleixo

linhas paralelas

24/07/2020

Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada para lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.

Murilo Mendes

rogando pragas

17/07/2020

Dizia o velho Agostinho
que este mundo é cheio de arte
e se encontra em toda parte
pedaços de mau caminho
um pessoal meu vizinho,
sem amor e sem moral,
atrás de fazer o mal,
para feijão cozinhar,
começaram a roubar
as varas do meu quintal.

Toda noite e todo dia
iam as varas roubando
e eu já não suportando
aquela grande anarquia
pois quem era eu não sabia
pra poder denunciar,
com aquele grande azar
vivia de saco cheio,
até que inventei um meio
pra do roubo me livrar

Eu dei a cada freguês,
com humildade o perdão
e lancei a maldição
em quem roubasse outra vez
e com muita atividez
na minha pena peguei,
umas estrofes rimei
sobre as linhas de uns papéis
rogando pragas cruéis
e lá na cerca botei.

Deus permite que o safado,
sem-vergonha ignorante,
que roubar de agora em diante
madeira do meu cercado,
se veja um dia atacado
com um cancro no toitiço,
toda espécie de feitiço e
em cima do mesmo caia
e em cada dedo lhe saia
um olho de panariço

O santo Deus de Moisés
lhe mande bexiga roxa
saia carbúnculo na coxa,
cravo na sola dos pés,
sofra os incômodos cruéis
da doença hidropsia
icterícia e anemia
tuberculose e diarreia
e a lepra da morfeia
seja a sua companhia

Deus lhe dê reumatismo
com a sinusite crônica
a sezão, o impaludismo
e os ataques da bubônica,
além de quatro picadas
de quatro cobras danadas
cada qual a mais cruel
de veneno fatal
a urutu, a coral
jararaca e cascavel

Eu já perdoei bastante
o que puderam roubar,
para ninguém censurar
que sou muito extravagante
mas de agora por diante,
ninguém será perdoado,
Deus queira que cão danado
um dia morda na cara
de quem roubar uma vara
na cerca do meu cercado

E o que não ouvir o rogo
que faço neste momento
tomara que tenha aumento
como correia ao fogo,
dinheiro em mesa de jogo
e cana no tabuleiro
e no dia derradeiro
a vela pra sua mão
seja um pequeno tição
de vara de marmeleiro.

Patativa de Assaré

o lamento das coisas

10/07/2020

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da energia abandonada!

É a dor da Força desaproveitada,
O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa…
Da transcendência que não se realiza…
Da luz que não chegou a ser lampejo…

E é, em suma, o subconsciente aí formidando
Da natureza que parou, chorando,
No rudementarismo do Desejo!

Augusto do Anjos

torna a definir o poeta…

03/07/2020

TORNA A DEFINIR O POETA OS MAUS MODOS DE OBRAR
NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE
NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.

Que falta nesta cidade? …………………. Verdade
Que mais por sua desonra …………….. Honra
Falta mais que se lhe ponha ………….. Vergonha.

O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onda falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? …………. Negócio
Quem causa tal perdição? ……………… Ambição
E o maior desta loucura?………………… Usura.

Notável desaventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doce objetos? ……. Pretos
Tem outros bens mais maciços? ….…. Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos? …. Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? …….. Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas ? …..……. Guardas
Quem as tem nos aposentos? …………. Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos,

E que justiça a resguarda? …….…….… Bastarda
É grátis distribuída? ………………….…….. Vendida
Que tem, que a todos assusta? ………. Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia? ……………….……. Simonia
E pelos membros da Igreja? …………… Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha? ……… Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos Frades há manqueiras? ….……. Freiras
Em que ocupam os serões? …….….…. Sermões
Não se ocupam em disputas? ….…….. Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou? ……….………… Baixou
E o dinheiro se extinguiu? ……………… Subiu
Logo já convalesceu? ……………………… Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode? ……………….….. Não pode
Pois não tem todo o poder? …………… Não quer
É que o governo a convence? ………… Não vence.

Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

Gregório de Matos

quem?

26/06/2020

Para que serve esta labuta errônea
do coração ao que jamais se doma?

Quem dá partida à trama do desejo
que se distende ao acaso e ao ensejo

de um domador que dorme com a loucura?
E quem amarra os nós dessa costura

num tecido que o próprio tempo esgarça
como se feito em linhas de fumaça?

Salgado Maranhão

à espera dos bárbaros

19/06/2020

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis

tempo de cães

12/06/2020

Os cães russos de Pavlov
salivavam para um metrônomo.
Estímulo e resposta: o jogo cruel do ludíbrio.

Para os cães russos de Pavlov,
em sua espera por recompensa palatável,
o som do metrônomo era o anúncio do paraíso de leite e mel.

Os cães russos de Pavlov
não sabiam que a fome irracional que os subjugava
se chamava reflexo condicionado

nem entendiam que não havia mais alimento
quando o metrônomo oscilava
em cliques temporizados.

Aquele era um tempo de cães.
Este é um tempo de homens que salivam.

Cinthia Kriemler

poema de circunstância

05/06/2020

Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O Arranha-Céu comeu!
E ainda falam nos mastodontes, nos brontossauros,
nos tiranossauros,
Que mais sei eu…
Os verdadeiros monstros, os Papões, são eles, os
arranha-céus!
Daqui
Do fundo
Das suas goelas
Só vemos o céu, estreitamente, através de suas
empinadas gargantas ressecas.
Para que lhes serviu beberem tanta luz?!
Defronte
À janela onde trabalho
Há uma grande árvore…
Mas já estão gestando um monstro de permeio!
Sim, uma grande árvore… Enquanto há verde,
Pastai, pastai, olhos meus…
Uma grande árvore muito verde…Ah,
Todos os meus olhares são de adeus
Como um último olhar de um condenado!

Mário Quintana