Posts Tagged ‘pq amanhã é sábado’

a solidão

23/06/2017

a solidão não é um vazio
a solidão é um cheio de tudo
um abarrotamento dentro da gente
no grande silêncio de fora

Vera Lúcia de Oliveira

os nomes

16/06/2017

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
– Tantos gestos, palavras, silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer “Meu Deus, valei-me”.

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.
Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

Manuel Bandeira

crisálida

09/06/2017

agora já não pedes
meus nervos em pasto

agora já te afastas
crescida em beleza

agora me contas piadas
que aprendes ou inventas

agora pressinto tuas asas

Paulo Glenadel

beldade no caminho

02/06/2017

O cavalo
    empertigado
    marcha sobre as flores
    caídas
Meu relho no ar
    roça as nuvens.
Bela, a menina
    que abre a cortina de pérolas
aponta, ao longe,
    com um sorriso,
a casa vermelha:
    “É lá que eu moro”.

                                             Li Bai

nem isto nem aquilo

26/05/2017

nem verso nem prosa
nem rima nem trova
letra perigosa
esta triste troça
que inibe e que acossa

nem escreve nem apaga
com lápis ou tinta
palavra bizarra
esta que não se poupa
e não se aceita extinta

Lota Moncada

flores

19/05/2017

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.

Mia Couto

chamem-me pelos meus verdadeiros nomes

12/05/2017

Não digam que parto amanhã
Porque ainda hoje estou chegando.

Olhe bem, a cada instante estou chegando
Para ser um broto em um ramo de primavera
Para ser passarinho, com as asas ainda frágeis,
Aprendendo a cantar em meu novo ninho,
Para ser lagarta no coração de uma flor,
Para ser uma joia oculta em uma pedra.

Ainda estou chegando, para rir e chorar,
Para sentir medo e esperança
O ritmo do meu coração é o nascimento e a morte
De tudo o que está vivo.

Sou a libélula em metamorfose
Na superfície do rio
E sou pássaro
que se lança ao ar para engolir a libélula.

Sou rã que nada alegremente
Nas águas claras de uma lagoa
E eu sou a serpente
que em silêncio se alimenta da rã.

Sou a criança em Uganda, só pele e ossos,
Minhas pernas tão finas como um bambu.
E sou o mercenário
que vende armas para Uganda.

Eu sou a menina de doze anos
Que se refugia em uma balsa
que se lança ao oceano
Após ter sido violentada por um pirata.
E eu sou o pirata
cujo coração ainda não é capaz
de sentir e de amar

Eu sou um membro do Politburo,
Com todo o poder em minhas mãos.
E eu sou o homem que pagou
Sua “dívida de sangue” para com seu povo
Morrendo lentamente em um campo de trabalho forçado.

Minha alegria é como a cálida primavera
Que faz florescer toda a Terra.
Minha dor é como um rio de lágrimas,
Tão vasto que enche os quatro oceanos.

Por favor, chamem-me pelos meus verdadeiros nomes,
Para que eu possa ouvir todos os meus gritos e risos ao mesmo tempo,
Para que eu posso ver que minha alegria e minha dor são uma.
Por favor, chamem-me pelos meus verdadeiros nomes,
Para que eu posso acordar
E a porta do meu coração
Possa permanecer aberta,
A porta da compaixão.

Thich Nhat Hanh

cerco

05/05/2017

Avança lenta, não derruba porta.
Ronda a casa e, às vezes, deita na cama.
Usará punhal? Envenena aos poucos?
Vai sugar a pouca força encontrada
no corpo já partido, definhado?
Talvez, compadecida com o cansaço
das pupilas que nada querem ver,
– ou sequer sonhar – ela encurte o ato,
e rompa logo o cordame dos cabos,
livrando o barco para, enfim, zarpar.

Lígia Cademartori

outono

28/04/2017

Minha velha aldeia
Sob as folhas vermelhas caídas
Aos poucos vai desaparecendo:
Nas samambaias do beiral
Como sopra o vento do outono!

Minamoto no Toshiyori

horizonte

21/04/2017

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa