Posts Tagged ‘pq amanhã é sábado’

alvissareira

18/05/2018

Tenho fome de boas-novas,
cartas com letra floreada,
postais, quem sabe,
de faróis
no Mar Vermelho.

Mas raro batem
à minha porta.
Por isso invento
meus milagres
(e então os lanço
dos telhados
em aviões de papel).

Ana Santos

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esquece

11/05/2018

E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz — esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.

Maria Alexandre Dáskalos

yoruba

04/05/2018

Três amigos eu tinha.
Pediu-me o primeiro
que dormisse na esteira.
Pediu-me o segundo
que dormisse no chão.
Pediu-me o terceiro
para dormir no seu peito.

Cedi a voz do terceiro
e vi-me transportado a um grande rio.

E do rio eu vi o rei
e o rei do sol.

E vi palmeiras
tão carregadas de fruto
que o peso as vergava
e as palmeiras morriam.

Ruy Duarte de Carvalho

poema do mar (fragmento)

27/04/2018

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
                          e ter que ficar!

Jorge Barbosa

fuga para a infância

20/04/2018

Nas tardes de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
os meninos brincavam
iam passear ao mar
até o Morro iam
ver a gente.

O menino ficou preso
quando cresceu.

E nas tardes de domingo
vozes vinham chamá-lo
vinham ecos de vozes
que lindas vozes o menino ouvia!

Mas o menino estava preso
e não saía…

Numa tarde de domingo
os outros meninos vieram chamar
o menino preso…
E foi nessa tarde de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
que o menino fugiu para não voltar.

Mário António

amêndoa de mombaça

13/04/2018

Por ti
colhi o luar
na cabaça

comi o retrato
na vidraça
feri

o gargalo
na taça
bebi

onde bebe
a caça
por ti

por tua
amêndoa de
Mombaça

David Mestre

diogo cão às portas do Zaire (fragmento)

06/04/2018

(…)
De Deus, empreendi que mora aqui no mar,
porque sou eu
quem lhe constrói a face.
(…)

Ruy Duarte de Carvalho

de que são feitos os dias?

30/03/2018

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

Cecília Meireles

namoro

23/03/2018

O carretel que desenrola fios de seda,
alinhava estrelas
sobre o céu de pano de nossas alamedas,

Flora Figueiredo

canção do sonho acabado

16/03/2018

Já tive a rosa do amor
– rubra rosa, sem pudor.
Cobicei, cheirei, colhi.
Mas ela despetalou
E outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
Me embriaguei de alegria!
Mas os risos da ventura,
No limiar da loucura,
Se tornaram fantasia…
Já almejei felicidade,
Mãos dadas, fraternidade,
Um ideal sem fronteiras
– utopia! Voou ligeira,
Nas asas da liberdade.
Desejei viver. Demais!
Segurar a juventude,
Prender o tempo na mão,
Plantar o lírio da paz!
Mas nem mesmo isto eu pude:
Tentei, porém nada fiz…
Muito, da vida, eu já quis.
Já quis… mas não quero mais…

Helenita Scherma