Posts Tagged ‘pq amanhã é sábado’

janeiro em iowa

19/01/2018

Nas longas noites de inverno, são estreitos os sonhos do fazendeiro.
De novo e de novo, ele cava os sulcos.

Robert Hass

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o ofício

12/01/2018

Tenho uma mesa.
Posso escrever tenho uma mesa.
Tenho uma cadeira.
Posso escrever tenho uma cadeira.
E mais:
tenho papel e tinta.
Posso escrever sobre o papel, com esta tinta.

Mas a poesia não está no que já tenho.
A poesia me diz
que está no que me falta.

Eduardo Langagne

você e Gullar

05/01/2018

Você é mais bonito que os brincos de pérola
da minha avó
Você é mais bonito que uma rosa
de papel crepom
cor-de-rosa
Você é mais bonito que um acrobata
que um cavalo-marinho
que uma nebulosa
Você é mais bonito que um laranjal
Você é mais bonito que um prato de sopa
mais bonito que uma xícara de chá
que uma cantiga
de ninar
mais bonito que uma pétala
seca
guardada num livro
que um ninho
de beija-flor

Olha,
você é tão bonito quanto um filme
mudo
e quase tão bonito
quanto um carrossel à noite.

Ana Santos

Ver o poema do Gullar aqui.

procuro uma alegria

29/12/2017

Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
– flor do cotidiano –
o voo de um pássaro
e de uma canção

Carlos Drummond de Andrade

à procura do natal

22/12/2017

Caminharei em busca do presépio
A noite inteira, meu Senhor.
Não haverá, porém, nenhuma estrela,
Para guiar meus passos.
Todas as estrelas estarão imóveis
No céu imóvel.

Caminharei em busca do presépio
A noite inteira, meu Senhor.
As estradas, porém, estarão solitárias,
Tudo estará adormecido,
As luzes das casas, apagadas,
As vozes dos peregrinos terão morrido
na distância sem fim.

Caminharei ansioso à tua procura,
Mas estarei tão atrasado,
O tempo terá caminhado tão na minha frente,
Que me será difícil encontrar teu recanto humilde.
Cansado, encontrarei grandes cidades,
Mas a tua cidade, Senhor, terá desaparecido.

Muitos se rirão de mim, sabendo que te procuro.

Não haverá nenhuma estrela
Para mostrar o lugar em que te encontras.
Todas as estrelas estarão imóveis no céu…

Augusto Frederico Schmidt

poema da despedida

15/12/2017

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

a cavalgada

08/12/2017

A lua banha a solitária estrada…
Silêncio… Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada…

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando;
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada…

E o bosque estala, move-se, estremece…
Da cavalgada o estrépito só aumenta
Perde-se após no centro da montanha…

E o silêncio outra vez soturno desce…
E límpida, sem mácula, alvacenta,
A lua a estrada solitária banha.

Raimundo Correia

 

pedra nua

01/12/2017

extrair da pedra tudo
o que pedra não for
tudo que a ela pelo tempo cego
ao seu exterior
se aderiu
por força alheia
forma e peso
volume e cor
tudo que se
pedra não for
nem areia ou cal
só de silêncio
por dentro
reste de cada palavra oca
a pele seca
a pedra nua no vazio campo de silêncio
só seu eco surdo ecoa

João Evangelista Rodrigues

fria geografia

24/11/2017

se mergulho no rio em rio
me transformo
com ele não me confundo
corpo e alma o rio mesmo
profundo ou raso me alicia

do rio me distingo

se seu nome pronuncio
afago seu coração de abismos
minha sede nunca se alivia

não há como apenas pelo nome
fixar seu canto
interromper o fluxo
de sua vasta e fria geografia

João Evangelista Rodrigues

zumbi

17/11/2017

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
tenho terreiros e tambores
e danço a dança do Sol.

Eu-Zumbi enfrento o vento
que ainda tarda
dessas cartas de alforria.

Eu-Zumbi jogo por terra
a caneta de ouro
de todas as Leis-Áureas.

Eu-Zumbi
Rei de Palmares
Tenho terreiros
e tambores
e danço a dança do Sol.

Adão Ventura