Posts Tagged ‘pq amanhã é sábado’

a folha do salgueiro

11/06/2021

Amo aquela formosa e terna moça
Que, à janela encostada, arfa e suspira;
Não porque tem do largo rio à margem
Casa faustosa e bela.
Amo-a, porque deixou das mãos mimosas
Verde folha cair nas mansas águas.
Amo a brisa de leste que sussura,
Não porque traz nas asas delicadas
O perfume dos verdes pessegueiros
Da oriental montanha.
Amo-a porque impeliu co’as tênues asas
Ao meu batel a abandonada folha.
Se amo a mimosa folha aqui trazida,
Não é porque me lembre à alma e aos olhos
A renascente, a amável primavera,
Pompa e vigor dos vales.
Amo a folha por ver-lhe um nome escrito,
Escrito, sim, por ela, e esse… meu nome.

Zhang Jiuling

outono

04/06/2021

Outono. Vem aí o vento frio.
Ainda na cama, oiço, lá fora, o criquilar dos grilos,
uma coisa simples, natural,
que me perturba e entristece.
A brisa afaga as minhas mangas de seda,
a lua clara brilha como gelo.
Madrugada. Um gaio canta nos ramos de uma árvore.
Selo o cavalo. Soou a hora do regresso.

Ruan Ji

boa sorte

28/05/2021

a sorte é asa no vento
com semblante de criança
destino aberto no tempo
cujo roteiro é uma dança

às vezes é flerte lunar
com a estrela alvissareira
natureza como altar
litania sem fronteira

tem coração ritmado
nos pés: chegada e partida
com olhar agateado
ilumina o chão da vida

Osmir Camilo

sábado de princesa

21/05/2021

sem papo. sem pique. sem caco. sem truque.
sem sinos. sem manha. sem tino. sem muque.
só kiss. só sol. só bliss. no máximo um blues.

Ledusha Spinardi

borboleta

14/05/2021

Mal saíra do casulo
para mostrar ao sol
o esplendor de suas asas
um pé distraído a pisou.

(A visão da beleza
dura um só instante
inesquecível.)

José Paulo Paes

repara bem

07/05/2021

repara bem:

uma flor
pisoteada
crescendo
no cantinho
da calçada,

não é uma flor:

é coragem

Victor H. Machado

alpaca, vicunha ou lhama

30/04/2021

Vaso, talha ou moringa
Plaina, cinzel ou cunha
Samba, xaxado e ginga
A encravada da minha unha
Tamba, cachaça ou pinga
Só o sol por testemunha
Búzios, runas e mandinga
Alpaca, lhama ou vicunha

Estrada, viela ou rua
Cutelo, adaga ou faca
Roldana, iça ou grua
Resina, verniz ou laca
A verdade crua e nua
Nada a ela escapa
Nem a Gonzaga, o Lua
Vicunha, lhama ou alpaca

Ataúde, esquife ou caixão
Bento Rodrigues na lama
Febre, maleita ou sezão
Navio Negreiro ou Derrama
Portanto, assim, então
Tudo é da mesma rama
Tudo escapa à razão
Alpaca, vicunha ou lhama

Da vicunha as vestes reais
Ao povo só o fardo chama
E aos guerreiros leais
Alpacas forram a cama
Às lhamas cargas demais
Sem descanso, sem alfama
Somos assim todos iguais
Alpaca, vicunha ou lhama

Getúlio Maia

25 de abril

23/04/2021

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

alegria

16/04/2021

Já ouço gritos ao longe
Já diz a voz do amor
A alegria do corpo
O esquecimento da dor

Já os ventos recolheram
Já o verão se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o sol que nos aquece

Já colho jasmins e nardos
Já tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

Já os sorrisos se dão
Já se dão as voltas todas
Ó certeza das certezas
Ó alegria das bodas

José Saramago

círios

09/04/2021

Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira –
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a luz de outrora.
Contemplo, adiante, meus círios acesos.

Não quero olhar pra trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.

Konstantinos Kaváfis