Posts Tagged ‘pq amanhã é sábado’

simplicidade

18/08/2017

Duas crianças brincavam
Saltando pela janela,
E vendo vir duas vacas
À outra disse uma delas:

“Vês aquela vaca branca!
É a que dá leite, Zezé.”
– “E a preta?” Pergunta o outro.
– “A preta…dá o café.”

Lobo da Costa

pai

11/08/2017

No chão tenro do Rio,
misto de areia e restos de alagadiços,

pus teu corpo
triturado,

limalha da velha Minas, ímã
que já não prendia nenhuma alma.

Pus ao pé de uma árvore,
perto do mar,

teu corpo moído, pesado, que
parecia um punhado de conchas

que se macerou insistente,
violentamente.

O chão do Rio ganhou mais peso,
outra geologia.

Eucanaã Ferraz

duas almas

04/08/2017

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
Entra, e, sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
Podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.
Há de ficar comigo uma saudade tua…
Hás de levar contigo uma saudade minha…

Alceu Wamosy

um dia

28/07/2017

um dia o espelho
me devolverá um velho
tomara que eu valha
o tempo que o tempo
levou no trabalho
de esculpir a minha cara

um dia o espelho
me devolverá o vazio
quem sabe eu já esteja
morrendo de frio
e quem chegar perto
pra ver se respiro
vai ver pelas marcas
que virei um vampiro

Ricardo Silvestrin

da amizade

21/07/2017

Não é pelo saber nele encerrado,
mas sim pelo sabor da língua antiga

– qual num palimpsesto culinário,
na língua nova a língua traduzida:

os nomes próprios são especiarias,
Tibério, Caio Lélio, Cipião,

são como mariscos pescados nas ilhas,
aura e sal conservados no som –,

que a leitura do Da Amizade,
de Marco Túlio Cícero, o romano,

portanto é menos uma aprendizagem,
que um pequeno rito gastronômico:

é como se comêssemos um prato
envolto em naufrágios e segredos

– os cozinheiros estão todo mortos,
os livros, porém, guardam a receita.

Francisco Bosco

gênese II

14/07/2017

no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância

Gregório Duvivier

quer-se o prazer

07/07/2017

Quer-se o Prazer – antes –
Depois – não sentir Dor –
Depois – alguns Calmantes
Para lhe contrapor –

Depois – adormecer –
Depois – se bem prouver
Ao seu Inquisidor
O Luxo de morrer –

Emily Dickinson

fixado

30/06/2017

Meus olhos fixam em um ponto
E passado tanto tempo
Ainda não consigo desviar
Continuo mantendo o olhar

Na realidade, visualizo o interior
Não o quadro da escrava perdida
Que paira em mesma medida
Enquanto a mente vai; todo vapor

Copos e copos
Segundos e minutos
Vão passando e passando
Mas continuo… encarando

Até que a taça caia no chão
E o som rompa minha visão
Estilhaçado, fragmentado
Finalmente vejo o outro lado.

Daniel Cruz

a solidão

23/06/2017

a solidão não é um vazio
a solidão é um cheio de tudo
um abarrotamento dentro da gente
no grande silêncio de fora

Vera Lúcia de Oliveira

os nomes

16/06/2017

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
– Tantos gestos, palavras, silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer “Meu Deus, valei-me”.

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.
Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

Manuel Bandeira