Posts Tagged ‘Pro Dia Nascer Feliz’

revolta

16/07/2018

Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.

Não trouxe mensagem
e nem deram senha…

Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora…

Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a minha memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória…

Guimarães Rosa

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visita ao monge taoísta

09/07/2018

Os latidos do cão se perdem
     no barulho da água
     de depois da chuva.
A flor do pessegueiro
     cobre-se de orvalho.
No fundo da floresta,
     vez em quando,
     aparece um cervo.
Perto da torrente,
     ao meio-dia,
     sinos emudecidos.
A ponta fina dos bambus perfura
     a névoa azulada.
A cascata se agarra
     ao pico de esmeralda.
Ninguém sabe dizer
     aonde ele foi,
e eu aqui, triste,
     apoiado
ao tronco do pinheiro.

Li Bai

de

02/07/2018

Tentei prender um guizo
no pescoço da hora.
Mas ela sobre nós arremeteu
um fogo tão frio e tão afoito
que não pude salvar um só instante
de nossa pele se quebrando.

Eucanaã Ferraz

ballata breve per la stessa donna

25/06/2018

cabelos vermelhos
e olhos verdes

sobre céu de verão
e espuma do mar

os lábios manchados
pelo sangue das amoras

quase matei minha sede

Luiz Roberto Guedes

observando

18/06/2018

sim

as horas de trégua

Quando se afiam
as facas

Eunice Arruda

eu não tenho a alma de um corrimão

11/06/2018

Eu não tenho a alma de um corrimão.
Eu sou mais do elo, da liga e do laço.
Respeito para mim é coisa fina,
assim como o abraço.

Mais do que as transas e os beijos,
as mãos dadas me parecem mais sinceras.

Tão ruins quanto as promessas
são as esperas.

Ana Elisa Ribeiro

sobre a pintura de um ramo florido

04/06/2018

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?

Su Dong Po

PS-> Título completo do poema: Sobre a pintura de um ramo florido “Primavera Precoce”, de Wang

as horas nulas

28/05/2018

A tela engana os olhos e inocula
nas pupilas a pálida e infecunda
semente que germina as horas nulas.
Pela página, o branco se aprofunda

em um tédio que o brilho dissimula.
Perdida, a noite esvai-se, vagabunda,
e nas mãos e nas pálpebras açula
preguiças e ócios. Quando já circunda

a manhã, a palavra segue em fuga
(fogo-fátuo no écran) e a folha, nua,
ainda distrai e cega – como a lua,

outros vates, enquanto não madruga
o verso que a renega. Só na crua
luz do dia, o poema ganha a rua!

Marcelo Vieira Ribeiro

ele sonha com tecidos celestiais

21/05/2018

Tivesse eu tecidos celestiais bordados,
Adornados de dourada e prateada luz,
Uns azuis, outros escuros e apagados
Da noite, da luz e da meia-luz,
Eu estenderia esses tecidos a teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas meus sonhos;
Estendi meus sonhos a teus pés;
Pisa macio porque pisas nos meus sonhos.

William Butler Yeats

cheguei às portas secretas

14/05/2018

cheguei às portas secretas
atravessei as passagens interditas
e
no labirinto que negou os meus passos
vi tesouros que não eram meus

Maria Alexandre Dáskalos