Posts Tagged ‘Pro Dia Nascer Feliz’

a ser feito

26/06/2017

sobre brasas
caminhar

sobre espinhos
e brasas
caminhar

sobre ácidos
facas e tédios

amores tumores
incêndios

caminhar

em direção
a si ao fora
ao fato

a vida é
algo a ser
feito

Carlos Moreira

batismo

19/06/2017

Manhã de junho
Eu, criança-objeto,
dou as mãos ao
menino boina-bombachinha
e seguimos nós,
eu e o menino,
a caminhar por uma rua disforme
paralelepípedos angulares,
solares fios dos cabelos infantis,
sem trocar palavras
seguíamos no percurso atemporal
e apertávamos as nossas mãos
nas leves descidas.
Sorrisos entreabertos nos tropecinhos.
A rua terminou no azul
E nós, eu e o menino,
mergulhamos no mais
silencioso e nevrálgico
dos países: o dos Andrade.

Simone de Andrade Neves

os livros na estante

12/06/2017

     Sento-me diante do computador e me sinto como se estivesse no meio de um palco, diante de uma plateia invisível. Essa sensação não me chega pelo que tenho à frente, a tela iluminada, mas pelo que me cerca. A estante de livros me rodeia como se fosse o público de uma arena exigindo melhor desempenho do ator/personagem.

     Os que mais se manifestam são os livros que ainda não li. Sabem que eu sei que são indispensáveis. Carregam em seu corpo histórias criadas por escritores brilhantes, que viveram várias épocas e conheceram a humanidade em todas as suas nuances. Eles não pesam sobre minhas costas, seu reclamar é leve. Digo-lhes que minha intenção é devorá-los em breve, tanto que os comprei e os guardei em lugar privilegiado. São obras-primas reconhecidas em todo o mundo, mas os afazeres do cotidiano e as exigências da vida moderna me impedem, como desejo, de fazer amor com eles, me envolver em suas tramas, em sua linguagem inovadora. É para já, eu prometo, mas eles me observam com olhar desconfiado. Afinal, passam-se os anos, minha existência já não será tão longa como antes e eu não tenho muito tempo a perder.

     Agora o vozerio vem dos poetas encadernados em volumes do lado direito. Sentem falta de minha voz recitando seus versos em voz alta ou em respeitoso silêncio reflexivo. Mas eu não estou tão relaxado assim, busco argumentar com Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca, Pessoa, Cecília e tantos outros que me indicam caminhos de encantamento. A poesia se entranhou em mim de tal forma, que a tenho correndo em minhas veias pela mesma estrada onde circulam as pessoas queridas que fui recebendo ao longo dos dias. Também sou cobrado pelos poetas novos, pelos romancistas e contistas, que me acusam de gastar horas com jornais, me inteirando de fatos que não vão contribuir para clarear minhas ideias nem engrandecer minha alma.

     Olho com carinho para eles, os meus livros. Não estão arrumados como deveriam estar, nesse móvel imponente de ferro e madeira que os sustenta. Quase sou vaiado quando prometo pôr ordem na bagunça: se não encontro ocasião para me deliciar com o que eles trazem de belo na carne, razão de sua permanência em minha casa, para que projetar uma organização nas prateleiras? Livro não é para ser ordenado, isso não faz falta, livro é para ser lido.

     Convencido pelas vozes da razão, faço uma pilha com o que julgo essencial e ainda não desvendei. Percebo que há um rumor de contentamento entre os volumes escolhidos. Ou a alegria será minha? De outro cômodo do lar, canções à espera de serem criadas ensaiam um protesto. Busco acalmar o burburinho, tenho tempo para todos, e mergulho na prazerosa tarefa de buscar felicidade no universo das palavras.

Fernando Brant

…as riquezas injustas

05/06/2017

E quanto às riquezas, pois, justas ou injustas
os bens adquiridos bem ou mal:
                                       Toda riqueza é injusta.
Todo bem,
               mal adquirido.
Senão por ti, pelos outros.
Tu podes ter a documentação perfeita. Mas
compraste a fazenda a seu legítimo dono?
E ele a comprou a seu dono? E o outro…etc., etc.
Poderias retroceder a teu título até a um título real
                                         porém
foi do Rei alguma vez?
Não se desapropriou alguma vez a alguém?
E o dinheiro que recebes legitimamente agora
de teu cliente, do Banco, do Tesouro Nacional
                         ou do Tesouro de USA
não foi alguma vez mal adquirido? Mas
tampouco penseis que no Estado Comunista Perfeito
as parábolas de Cristo já estejam antiquadas
e Lucas 16,9 já não tenha validez
                    e que já não são INJUSTAS as riquezas
e que já não tenhas a obrigação de reparti-las!

Ernesto Cardenal

sempre

29/05/2017

Alice Ruiz

é o que me interessa

22/05/2017

Daqui desse momento
O meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa
Às vezes é o instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto
E é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso

O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

Lenine/Dudu Falcão

negro forro

15/05/2017

minha carta de alforria
não me deu fazendas,
nem dinheiro no banco,
nem bigodes retorcidos.

minha carta de alforria
costurou meus passos
aos corredores da noite
de minha pele.

Adão Ventura

saudade

08/05/2017

saudade viva abre ferida
que às vezes é até
dorzinha boa de sentir.
Mas é quando ela morre
que faz mais sentido sorrir

Tokinho Carvalho

um poeta não

01/05/2017

um poeta não se aposenta
porque o tempo que corre em suas veias
não se conta em relógio de ponto

um poeta não se aposenta
porque ele é
politicamente incorreto
praticamente inviável
juridicamente invisível

um poeta não se aposenta
porque a matéria com que trabalha
está na boca de todos
esperando que ele dê forma ao inconforme

o poeta não se aposenta
mas não se apoquenta
soa abençoa
e desorienta

um poeta não se aposenta
porque ele vai até o fim e depois

um poeta não

Chacal

abri subitamente

24/04/2017

Abri subitamente uma janela
e vi nascer da sombra uma cidade
feita de paz lunar e eternidade.
Na cúpula mais alta, na viela

entre casas humildes escondida,
nas árvores, jardins, em cada muro,
pairava uma esperança de um futuro
belo demais para esta amarga vida!

Abri subitamente uma janela:
uma cidade vi que distendia
os seus braços de névoa, indecisos,

e me ocorreu pensar quem poderia
perder-se em seu mistério e, através dela,
chegar até remotos paraísos!

Alphonsus de Guimaraens Filho