Posts Tagged ‘Pro Dia Nascer Feliz’

salada mista

19/02/2018

Posso dizer que sou outra pessoa:
abandonei o hábito de comer
a pera, a uva e a maçã
que o diabo amassou

Noélia Ribeiro

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limite

12/02/2018

e quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.

e quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.

e quanto a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.

e quando a palavra
é fuga
em sua própria armadilha.

e quando a palavra
é furada
em sua própria efígie.

a palavra
sem vestimenta,
nua,
desincorporada.

Adão Ventura

coleção

05/02/2018

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções

Ana Martins Marques

o frio

29/01/2018

Quão exatamente bom é
saber quem sou
na solidão do inverno,

meu corpo contendo seu próprio
calor, separado de tudo o mais
pelo frio; e seguir

à parte e seguro
entre árvores limpidamente
separadas, pensando em você,

também perfeita em sua solidão,
sua vida apartada para dentro
de sua própria conservação

— para ser claro, equilibrada
em perfeita auto suspensão
voltada a você, como se congelada.

E tendo conhecido plenamente a
benevolência dele, será,
igualmente bom, derreter.

Wendell Berry

vaga memória da infância

22/01/2018

Foi no fim do dia —
Vastas distantes nuvens
No zênite que escurecia
No fim do dia.

As vozes das minhas tias
Ecoando através de uma janela aberta.
E a conversa de pássaros mal-humorados numa árvore alta
Se misturava às vozes das minhas tias.

Eu, brincando sozinho
Como numa espécie de sonho,
e varas e galhos comigo, atuando,
Brincando, ali, sozinho

Na poeira.
E uma lâmpada se acendeu dentro da casa,
Imprimindo uma frágil e dourada geometria
Sobre a poeira.

Sombras chegaram engolfando
O grande e encantado plátano.
Foi no fim do dia.
Sombras chegaram engolfando.

Donald Justice

infinito

15/01/2018

Não existe o infinito:
o infinito é a surpresa dos limites.
Alguém constata sua impotência
e logo a prolonga para além da imagem, na ideia,
e nasce o infinito.
O infinito é a dor
da razão que assalta nosso corpo.
Não existe o infinito, mas sim o instante:
aberto, atemporal, intenso, dilatado, sólido;
nele, um gesto se faz eterno.
Um gesto é um trajeto e uma encruzilhada,
um estuário, um delta de corpos que confluem,
mais que trajeto um ponto, um estalido,
um gesto não é início nem fim de nada,
não há vontade no gesto, somente impacto;
um gesto não se faz: acontece.
E quando algo acontece, não há escapatória:
todo olhar tem lugar num lampejo,
toda voz é um signo, toda palavra forma
parte do mesmo texto.

Chantal Maillard

o medo

08/01/2018

Quero destituir o medo
Esqueço que ele é uma farinha
Ladeando as artérias
Borrando os olhos, criando
Sombras e pontos-cegos
Está na água que bebo
No chilrear das aves de domingo
Está intrínseco em tudo
Exceto nas florestas
O medo tem medo das florestas,
Pois nas copas das árvores
Está a mão de Deus.

Priscila Merizzio

pressentimento

01/01/2018

Grandes eventos estão para acontecer.
Eu vi pássaros migratórios
em número sem precedentes
pousando na planície costeira,
deixando as margens limpas.
Meus ossos são uma família, em sua tenda,
em torno de uma pequena fogueira
aguardando por um sinal incerto
a fim de retomar a longa marcha.

Stanley Kunitz

mensagem

25/12/2017

Todas as coisas foram pesquisadas,
Conferidas, catalogadas em séries,
Não resta mais nenhum prodígio
No seio da Terra, no seio do ar.
O mundo é um bocejo.
Entretanto (como explicar?)
Chega de manso, infiltra-se em nossas paredes
De casa, de carne,
Impressentida essência
(Melodia, memória)
E nos subjuga: Natal.

Carlos Drummond de Andrade

isso ainda

18/12/2017

o corpo quer ser livro
por isso
ainda o sinto vivo

Yassu Noguchi