Posts Tagged ‘Pro Dia Nascer Feliz’

diálogo no rio dongyang

14/06/2021

Tão formosa a menina
lavando os pés nas águas verdes do rio!…
“És brilhante como a lua entre as nuvens
mas tão distante, impossível de alcançar.”
disse o moço esbelto
na barca, descendo as águas.
“Depende”, respondeu a donzela,
“se queres a lua, com toda a tua alma,
ela desce das nuvens
e cai nas tuas mãos.”

Xie Lingyun

tempus fugit

07/06/2021

O tempo foge, a cascata flui.
O carro dos quatro corcéis desaparece.
O destino é sagaz.
Mas o que ele não consegue
é restituir-me a vida quando morto eu for.

Já vivi bastante.
Caem-me os dentes, caem-me os cabelos.
Sou como uma uma maçã murcha no Inverno.
É esta a lei dos homens.
De que serve revoltar-me?

Mao Heng

eis outra janela

31/05/2021

Eis outra janela,
Onde outros não dormem.
Talvez bebam vinho,
Ou sentem mansinho.
(…)
Grito de encontro e de adeus –
Tu, janela na noite!
Talvez – cem candeias,
Talvez – só três velas…
Não há nenhuma paz
Também para mim.
Pois, em minha casa,
Aconteceu assim.

Reza, amigo, pela casa acordada,
Reza, pela janela iluminada!

Marina Tsvetáieva

marcador de páginas

24/05/2021

fiel amigo sinaleiro
nas folhas adormecidas
a marcar recomeços
a parcelar narrativas,
nenhum herói ou vilão
ofusca nem o diminui
sem ciúmes, sem pressa
o marcador é saltimbanco
na intimidade da leitura

Luiz Cláudio de Paulo

18.05.1961

17/05/2021

Nasci num lugar pobre,
onde o hospital era longe,
onde era longe a estrada
e os anjos não conheciam:

Nasci mês de maio, azul
de tardes macias,
de pai José,
mãe Maria.

Batizaram-me: Terra Prometida.
Terra pobre, onde a felicidade passa
longe, mas daqui eu a vejo
e todo o meu corpo brilha.

Eucanaã Ferraz

oceano

10/05/2021

Todos veem uma gota
de água no oceano
mas poucos o oceano
numa gota de água

Kabir

o haver

26/04/2021

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história…

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinícius de Moraes

hai-kai

19/04/2021

hora do recreio
folhas brincam com o vento
no pátio vazio

Conrado Falbo

poema à boca fechada

12/04/2021

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e me amordaça.
Calado estou, calado estarei,

Pois que a língua que falo é doutra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só todos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais, bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

o prazer da pipa

05/04/2021

E quando o mesmo Geraldo Gonçalves de Alencar
recomeçou a beber, Patativa produziu o seguinte soneto:

A mesma pipa que gemeu de dores
Chorando a falta de freguês ausente
Hoje na espuma toda reluzente
Mostra o rosário de bonitas cores.

Ao som da flauta, violões, tambores,
Pife e zabumba, canta sorridente,
Tudo que alegre o coração da gente
Hinos de bravos e canções de amores.

Se alguém pergunta o principal motivo
De tantas galas neste mês festivo,
Ela esquecendo o padecer de outrora,

Responde cheia de um amor profundo:
Eu sou a pipa mais feliz do mundo,
Foi meu Geraldo que voltou agora.

Patativa do Assaré