Posts Tagged ‘Pro Dia Nascer Feliz’

bucólico

14/08/2017

Zagala, guardadora de esquivanças,
que pascem noutros montes, noutros ares,
guia na direção destes lugares,
o teu rebanho de ovelhinhas mansas.

Brancas ovelhas, minhas esperanças,
— rebanho que a tanger por entre algares,
tenho feito com zelos e pesares,
o mais viçoso destas vizinhanças, —

ao som da agreste avena e dos sincerros,
alcantilados e frolidos serros
galgai, transpondo vales e barrancas,

e à zagala e a seu gado, em sítio estranho,
ajuntai-vos, formando um só rebanho,
ovelhas mansas, ovelhinhas brancas.

Marcelo Gama

aracaju

07/08/2017

Céu todo Azul
Chegar no Brasil por um atalho
Aracaju
Terra cajueiro papagaio
Araçazu
Moqueca de cação no João do Alho
Aracaju
Voltar ao Brasil por um atalho
Ser feliz
O melhor lugar é ser feliz
O melhor é ser feliz
Mas
Onde estou
Não importa tanto aonde vou
O melhor é ter amor
Aracaju
Cajueiro arara cor de sangue
Nordeste-Sul
Centro da cidade bangue-bangue
Aracaju
Menos o Sergipe e mais o mangue
Ser feliz
O melhor lugar é ser feliz
O melhor é ser feliz
Onde estou
Não importa tanto aonde vou
O melhor é ter amor

Caetano Veloso

último poema

31/07/2017

Agora deixa o livro
volta os olhos
para a janela
a cidade
a rua
o chão
o corpo mais próximo
tuas próprias mãos:
aí também
se lê

Ana Martins Marques

a ascensorista

24/07/2017

a primeira vez que vi teresa
foi hoje pela manhã quando
desci de elevador

quando vi teresa de novo
foi hoje pela tarde quando
subi de elevador

da terceira vez não vi mais nada
desci de escada

Lucas Viriato

teresa

17/07/2017

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Manuel Bandeira

o infinito

10/07/2017

Volto sempre a esta encosta solitária
e gosto até da sebe que me encobre
em boa parte o extremo do horizonte.
Porém, sentado e olhando, eu infindáveis
espaços muito além e sobre-humanos
silêncios e as quietudes mais profundas
formo ao pensar, a ponto de que o peito
por pouco não se alarma. E ouvindo folhas
farfalharem ao vento, esta voz logo
comparo com aqueles infinitos
silêncios, e me assoma a eternidade
e as eras que passaram e esta nossa,
viva e ruidosa. Então meu pensamento
se afoga nessa imensidade toda:

e é doce naufragar num mar assim.

Giacomo Leopardi
Outra versão:
https://balsamobenigno.wordpress.com/2013/04/15/infinito/

fineza

03/07/2017

dono de uma fineza
absoluta:
na sala sartre
na cama sutra

Múcio Góes

a ser feito

26/06/2017

sobre brasas
caminhar

sobre espinhos
e brasas
caminhar

sobre ácidos
facas e tédios

amores tumores
incêndios

caminhar

em direção
a si ao fora
ao fato

a vida é
algo a ser
feito

Carlos Moreira

batismo

19/06/2017

Manhã de junho
Eu, criança-objeto,
dou as mãos ao
menino boina-bombachinha
e seguimos nós,
eu e o menino,
a caminhar por uma rua disforme
paralelepípedos angulares,
solares fios dos cabelos infantis,
sem trocar palavras
seguíamos no percurso atemporal
e apertávamos as nossas mãos
nas leves descidas.
Sorrisos entreabertos nos tropecinhos.
A rua terminou no azul
E nós, eu e o menino,
mergulhamos no mais
silencioso e nevrálgico
dos países: o dos Andrade.

Simone de Andrade Neves

os livros na estante

12/06/2017

     Sento-me diante do computador e me sinto como se estivesse no meio de um palco, diante de uma plateia invisível. Essa sensação não me chega pelo que tenho à frente, a tela iluminada, mas pelo que me cerca. A estante de livros me rodeia como se fosse o público de uma arena exigindo melhor desempenho do ator/personagem.

     Os que mais se manifestam são os livros que ainda não li. Sabem que eu sei que são indispensáveis. Carregam em seu corpo histórias criadas por escritores brilhantes, que viveram várias épocas e conheceram a humanidade em todas as suas nuances. Eles não pesam sobre minhas costas, seu reclamar é leve. Digo-lhes que minha intenção é devorá-los em breve, tanto que os comprei e os guardei em lugar privilegiado. São obras-primas reconhecidas em todo o mundo, mas os afazeres do cotidiano e as exigências da vida moderna me impedem, como desejo, de fazer amor com eles, me envolver em suas tramas, em sua linguagem inovadora. É para já, eu prometo, mas eles me observam com olhar desconfiado. Afinal, passam-se os anos, minha existência já não será tão longa como antes e eu não tenho muito tempo a perder.

     Agora o vozerio vem dos poetas encadernados em volumes do lado direito. Sentem falta de minha voz recitando seus versos em voz alta ou em respeitoso silêncio reflexivo. Mas eu não estou tão relaxado assim, busco argumentar com Drummond, Bandeira, Cabral, Lorca, Pessoa, Cecília e tantos outros que me indicam caminhos de encantamento. A poesia se entranhou em mim de tal forma, que a tenho correndo em minhas veias pela mesma estrada onde circulam as pessoas queridas que fui recebendo ao longo dos dias. Também sou cobrado pelos poetas novos, pelos romancistas e contistas, que me acusam de gastar horas com jornais, me inteirando de fatos que não vão contribuir para clarear minhas ideias nem engrandecer minha alma.

     Olho com carinho para eles, os meus livros. Não estão arrumados como deveriam estar, nesse móvel imponente de ferro e madeira que os sustenta. Quase sou vaiado quando prometo pôr ordem na bagunça: se não encontro ocasião para me deliciar com o que eles trazem de belo na carne, razão de sua permanência em minha casa, para que projetar uma organização nas prateleiras? Livro não é para ser ordenado, isso não faz falta, livro é para ser lido.

     Convencido pelas vozes da razão, faço uma pilha com o que julgo essencial e ainda não desvendei. Percebo que há um rumor de contentamento entre os volumes escolhidos. Ou a alegria será minha? De outro cômodo do lar, canções à espera de serem criadas ensaiam um protesto. Busco acalmar o burburinho, tenho tempo para todos, e mergulho na prazerosa tarefa de buscar felicidade no universo das palavras.

Fernando Brant