Posts Tagged ‘Pro meu corpo ficar Odara’

belo dia

16/05/2018

Belo dia foi aquele dia azul
Azulado pelo anil imperial
Ajudado pelo sol e o vento sul
A tornar mais branca a roupa no varal

Belo dia foi aquele dia assim
Cintilante sem as nuvens do senão
Se não fosse aquele dia lindo enfim
Não podia ter sentido esta canção

O sentido dessa vida é ao invés
Azular a cor do branco é clarear
Escurecer pra dormir é através
De uma luz que o sono apaga ao acordar

Gilberto Gil

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a linha e o linho

09/05/2018

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão

A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Gilberto Gil

a força secreta daquela alegria

02/05/2018

Que roseira bonita
Que me olha tão aflita
Que roseira bonita
Que me olha tão aflita
Pela chuva que não vem

Corro, pego o regador
Ela me olha com amor
Sabe o que lhe convém
Sabe o que lhe convém

Às vezes falo ao acaso
Com a samambaia de um vaso
Em cima da janela olhando a baía
Em cima da janela olhando a baía

Usamos telepatia
Falamos da vida
Sobre os amores das flores
E a força secreta daquela alegria

Gilberto Gil/Jorge Mautner

a foto da capa

25/04/2018

O retrato do artista quando moço
Não é promissora, cândida pintura
É a figura do larápio rastaquera
Numa foto que não era para capa
Uma pose para câmera tão dura
Cujo foco toda lírica solapa

Era rala a luz naquele calabouço
Do talento a claraboia se tampara
E o poeta que ele sempre se soubera
Claramente não mirava algum futuro
Via o tira da sinistra que rosnara
E o fotógrafo frontal batendo a chapa

É uma foto que não era para capa
Era a mera contracara, a face obscura
O retrato da paúra quando o cara
Se prepara para dar a cara a tapa

Chico Buarque de Hollanda

o que será (à flor da terra)

18/04/2018

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque de Hollanda

o que será (à flor da pele)

11/04/2018

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque de Hollanda

o que será

04/04/2018

O que será que lhe dá
O que será meu nego, será que lhe dá
Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
Será que o meu chamego quer me judiar
Será que isso são horas dele vadiar
Será que passa fora o resto do dia
Será que foi-se embora em má companhia
Será que essa criança quer me agoniar
Será que não se cansa de desafiar
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico Buarque de Hollanda

mau tempo

28/03/2018

Sem sol
sem sal
sem sim

sem si
sensível.
Só não…

Sonão,
Soninho!
Só ninho…

Solange Borges

não me guio

21/03/2018

não me sujeito
a essas regras
escrevo
e é um desafio

não me guio
pelo quebranto
canto
desafino e corrijo

às vezes poema
às vezes pranto
sempre dilema
escapo
ao meu esconderijo

Lota Moncada

hoje não há tema

14/03/2018

Hoje não há tema
lembrou o poema ao aprendiz.
Se realmente anseias escrever
não te deslumbres com rimas banais
despeja palavras no tampo da mesa
prova-lhes o sentido, a beleza
e depois de um trabalho apurado
ergueu construções originais
e aí, quem sabe, o poema grite:
chega, estou pronto para ser saboreado.

Helena Figueiredo