Posts Tagged ‘Pro meu corpo ficar Odara’

o meu traje

16/06/2021

O meu traje é da época de um rei da dinastia Qin,
Usaram-no tantas e belas mulheres para dançar
Que as pregas conservam sinuosidades harmoniosas.
Acariciam-nos tantas brisas
Que o meu traje é diáfano
Como a asa de uma borboleta.

Chen Li

elogio do vinho

09/06/2021

Um amigo meu, homem superior, considera que a eternidade é uma manhã e dez mil anos um simples abrir e fechar de olhos. O sol e a chuva são as janelas da sua casa. Os oito pontos cardeais, as suas avenidas. Caminha sem destino. Inútil se torna procurar as suas pegadas. A sua casa tem o céu por teto e terra por leito. O seu único pensamento é o vinho. Nada mais, aquém ou além, o preocupa.


O seu modo de viver chegou aos ouvidos de dois respeitáveis filantropos: o primeiro, um jovem nobre, o outro, um famoso letrado. Foram visitá-lo e com os olhos furiosos e ranger de dentes, agitando as mangas das suas vestes reprovaram vivamente a sua conduta. Falaram-lhe dos ritos e das leis, do método e do equilíbrio. E as suas palavras zumbiam como um exército de abelhas. Entretanto o seu interlocutor encheu um copo e bebeu-o de um trago. Depois sentou-se no solo com as pernas cruzadas, encheu de novo o copo, afastou a barba e recomeçou a beber até que, a cabeça inclinada sobre o peito, caiu num estado de ditosa inconsciência. Apenas interrompida por relâmpagos de semilucidez. Os seus ouvidos não teriam escutado a voz do trovão, os seus olhos não teriam reparado numa montanha. Cessaram o frio, o calor e a tristeza. Abandonou os seus pensamentos. Inclinado sobre o mundo contemplava o tumulto dos seres e da natureza. Como algas flutuando sobre um rio…

Liu Ling

soneto para greta garbo

02/06/2021

Entre silêncio e sombra se devora
e em longínquas lembranças se consome
tão longe que esqueceu o próprio nome
e talvez já não sabe por que chora.

Perdido o encanto de esperar agora
o antigo deslumbrar que já não cabe
transforma-se em silêncio por que sabe
que o silêncio se oculta e se evapora.

Esquiva e só como convém a um dia
despregado do tempo, esconde a tua face
que já foi sol e agora é cinza fria.

Mas vê nascer da sombra outra alegria
como se o olhar magoado contemplasse
o mundo em que viveu, mas que não via.

Carlos Pena Filho

vida

26/05/2021

lembrança é lâmpada
virada para o passado

passado é presente
sendo olhado

futuro foi estarmos
lado a lado

Wagner Vieira

teologia

19/05/2021

A minhoca cavoca que cavoca.
Ouvira falar da grande luz, o Sol.
Mas quando põe a cabeça de fora,
a Mão a segura e a enfia no anzol.

José Paulo Paes

noturno de itabira

12/05/2021

Teus heróis já estão mortos:
nada te resta senão a traça
roendo a memória:

Nesta hora tardia, o príncipe
com o fio da espada acorda o relógio.
Mas o tempo não marca as estações,
nem para o trem na curva
onde há pouco esperavas
chegar o amor.

Não te consolam carros velozes,
a fórmula-um do pirlimpimpim,
o zepelim (corrida sem prêmios
nas pista esfalfada).

Nem te consola a doce carícia
de tua íssima amante.
Os heróis mortos: cisnes, fadas,
lobos. Famintas galinhas
barganham o ouro do ventre
por um prato de feijão-tropeiro.

A noite é profunda; mole e lenta
move-se a lesma
sobre a resma de papel
em que recolhes
teu último poema.

Márcio Sampaio

a gota

05/05/2021

A
Gota
Alíquota
De água líquida
Em formato peculiar
Fruto da ação gravitacional
Das forças de tensão superficial
Vapor de água, partículas discretas
Condensada pela pressão atmosférica
Precipita, semeando vida, homérica
Brota no chão esperança concreta
Ciclicamente, absorvendo energia
Agita-se, rompe a interação
Aumenta a entropia
Evaporação

Wilmo Francisco Jr.

canto brasileiro

28/04/2021

Meu coração é o violão de espanha
Meu sangue quente é o banjo americano
A minha voz é o cello da alemanha
Meu sentimento é o bandolim cigano

A minha mágoa é o som francês do acordeon
Meu crânio é a gaita de fole escocesa
Meus nervos são como bandoneon
Minha calma é igual guitarra portuguesa

Meu olho envolve como flauta indiana
Minha loucura é como harpa romana
Meu grito é o corne inglês de desespero

Maldito ou bíblico, demônio ou santo
Cada país foi me emprestando um canto
E assim nasceu meu canto brasileiro

Paulo César Pinheiro

poema didático

21/04/2021

Já tive um país pequeno,
tão pequeno
que andava descalço dentro de mim.
Um país tão magro
que no seu firmamento
não cabia senão uma estrela menina,
tão tímida e delicada
que só por dentro brilhava.

Eu tive um país
escrito sem maiúscula.
Não tinha fundos
para pagar a um herói.
Não tinha panos
para costurar bandeira.
Nem solenidade
para entoar um hino.
Mas tinha pão e esperança
para os viventes
e sonhos para os nascentes.

Eu tive um país pequeno,
tão pequeno
que não cabia no mundo.

Mia Couto

o crise

14/04/2021

chorei durante toda manhã
planejava uma rota de fuga
imaginando a vida noutras
chorei porque já não sabia
quem sobrava no decantar
mas sabia ser um pouco só
o que sobrava era já nesga
flutuava–me o olho adiante
e podia apalpar o futuro ali
ele sólido e um tanto febril

Liv Lagerblad