Posts Tagged ‘Pro meu corpo ficar Odara’

domingo de manhã

17/01/2018

Acorda a madrugada
Já vem solta a passarada
Alarido, barulhada, já é
De ontem pra amanhã
O sol vem pela fresta
Zera tudo o que não presta
E a matina desembesta, pois é
Domingo de manhã

Lá fora, quantas ilhas
O alvoroço das famílias
Terremotos, armadilhas no ar
E a alma quase sã
Segunda recomeça
Nossa vida, nossa pressa
Tudo agora é só promessa, pois é
Domingo de manhã

Joyce Moreno

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delicadeza

10/01/2018

Discreta em companhia de gente esquisita
maldita em ambiente de gente normal
plantando coisas belas num circo de horrores
com flores e bombons no Juízo Final
pintando aquarelas em terra de cego
com pregos, paus e pedras e más intenções
se por delicadeza eu oculto o meu ego
me nego a ser princesa num reino de anões

Bordando sutilezas e finas malícias
delícias num país que não tem paladar
o coração partido de tanta falácia
que passa e a gente nem pode se desviar
sonhando ainda um tempo menos suicida
que diga pra que veio e que possa provar
se por delicadeza eu perder minha vida
saí mesmo à francesa, queira desculpar

Joyce Moreno

mistérios

03/01/2018

Um fogo queimou dentro de mim
Que não tem mais jeito de se apagar
Nem mesmo com toda a água do mar
Preciso aprender os mistérios do fogo
Pra te incendiar
Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio pra me levar
Preciso aprender os mistérios do rio
Pra te navegar
Vida breve
Natureza
Quem mandou, coração
Um vento bateu dentro de mim
Que eu não tive jeito de segurar
A vida passou pra me carregar
Preciso aprender os mistérios do mundo
Pra te ensinar

Joyce Moreno/Maurício Maestro

lamentosas queixas de uma donzela enamorada

27/12/2017

Escuta, mau cavaleiro,
sofreia a rédea um instante;
não fatigues as ilhargas
de teu pobre Rocinante.

Olha, falso, que não foges
de serpente fera e má,
porém de uma cordeirinha
que de ovelha longe está.

Tu zombaste, monstro horrendo,
da donzela mais formosa
que Diana viu em seus montes
e Vênus na selva umbrosa.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

Tu levas – furto impiedoso! –
nessas garras encerrada
a alma inteira de uma humilde,
pobre, terna enamorada.

Levas três toucas de enfeite
e umas ligas, que adornavam
pernas tão alvas e lisas
que ao mármore se igualavam.

E levas dois mil suspiros
tão ardentes que, parece,
queimariam três mil Troias,
se três mil Troias houvesse.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

De teu escudeiro Sancho
se endureça o peito tanto
que não saia Dulcineia
nunca mais de seu encanto.

Da culpa de que és culpado
tenha triste a pena e as dores,
que aqui muitas vezes pagam
justos pelos pecadores.

Que as mais finas aventuras
se te volvam em tristezas,
em sonhos teus passatempos,
em desdéns tuas firmezas.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

De Sevilha até Marchema,
desde Loja até Granada,
de Londres à Inglaterra
tenha de falso nomeada.

Quando baralho jogares
fujam-te reis e valetes,
às mãos não te cheguem ases
nem vejas damas ou setes.

Que sangres, quando te cortes
os calos dos calcanhares
e não saiam as raízes
quando os dentes arrancares.

     Vireno atroz, Eneias fugitivo, Barrabás te acompanhe, de olho vivo!

Miguel de Cervantes

quem deixará, do verde prado umbroso

20/12/2017

Quem deixará, do verde prado umbroso,
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,

por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?

Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo.

Miguel de Cervantes

os remédios da paixão

13/12/2017

Quem menoscaba meus bens?
            Desdéns.
Quem aumentas meus queixumes?
           Ciúmes.
Que me prova a paciência?
           Ausência.

Assim, na dor sem clemência
nenhum remédio se alcança,
pois me matam a esperança
desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
           Amor.
Quem manda os tormentos meus?
           Os céus.
Quem, desta glória, o assassino?
            Destino.

Assim, receio e imagino,
que esse estranho mal me mate,
pois me dão feroz combate
o amor, os céus e o destino.

Quem mudará a minha sorte?
           A morte.
O bem do amor, quem o alcança?
           Mudança.
E seus males, quem os cura?
           Loucura.

Assim, não será cordura
querer curar a paixão
quando os seus remédios são
morte, mudança e loucura.

Miguel de Cervantes

dulcineia del toboso

06/12/2017

              “(…)
            – Se é, pois, essencial que todo cavaleiro andante seja enamorado – disse o caminhante –, deve a gente supor que vosmecê também o seja, já que é da profissão. E se não se preza vosmecê de ser tão secreto como Dom Galaor, com todo o empenho lhe suplico, no meu nome e no de toda esta companhia, que nos revela o nome, a pátria, a qualidade e a formosura da sua dama. E ela há de se dar por feliz de que todo o mundo saiba que é querida e servida por um cavaleiro tal como parece sê-lo vosmecê.
              Aqui soltou Dom Quixote um grande suspiro, e disse:
            – Não poderei afirmar se a minha doce inimiga aprecia ou não, que o mundo saiba que a sirvo; só sei dizer (respondendo ao que tão respeitosamente se me pede) que o seu nome é Dulcineia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha: sua qualidade, pelo menos, há de ser a de princesa, já que é rainha e senhora minha; sua formosura, sobre-humana, pois nela se fazem verdadeiros todos os impossíveis e quiméricos atributos da beleza, que os poetas emprestam às suas damas; seus cabelos são de ouro; sua testa, campos elísios; suas sobrancelhas, arcos celestes; seus olhos são sóis, suas faces rosas, seus lábios corais; pérolas os seus dentes, alabastro o seu colo, mármore o seu peito, marfim suas mãos, de neve sua brancura; e as partes que à vista humana encobriu a honestidade são tais que, segundo penso e entendo, só a discreta consideração pode encarece-las, sem compará-las.
             (…)”

Miguel de Cervantes

 

autobiografía

29/11/2017

Gloria Fuertes nació en Madrid
a los dos días de edad,
pues fue muy laborioso el parto de mi madre
que si se descuida muere por vivirme.
A los tres años ya sabía leer
y a los seis ya sabía mis labores.
Yo era buena y delgada,
alta y algo enferma.
A los nueve años me pilló un carro
y a los catorce me pilló la guerra;
A los quince se murió mi madre, se fue cuando más falta me hacía.
Aprendí a regatear en las tiendas
y a ir a los pueblos por zanahorias.
Por entonces empecé con los amores,
– no digo nombres -,
gracias a eso, pude sobrellevar
mi juventud de barrio.
Quise ir a la guerra, para pararla,
pero me detuvieron a mitad del camino.
Luego me salió una oficina,
donde trabajo como si fuera tonta,
– pero Dios y el botones saben que no lo soy -.
Escribo por las noches
y voy al campo mucho.
Todos los míos han muerto hace años
y estoy más sola que yo misma.
He publicado versos en todos los calendarios,
escribo en un periódico de niños,
y quiero comprarme a plazos una flor natural
como las que le dan a Pemán algunas veces.

Gloria Fuertes

a veces quiero preguntarte cosas

22/11/2017

A veces quiero preguntarte cosas,
y me intimidas tú con la mirada,
y retorno al silencio contagiada
del tímido perfume de tus rosas.

A veces quise no soñar contigo,
y cuanto más quería más soñaba,
por tus versos que yo saboreaba,
tú el rico de poemas, yo el mendigo.

Pero yo no adivino lo que invento,
y nunca inventaré lo que adivino
del nombre esclavo de mi pensamiento.

Adivino que no soy tu contento,
que a veces me recuerdas, imagino,
y al írtelo a decir mi voz no siento.

Gloria Fuertes

poeta independiente

15/11/2017

Ni fui madre, ni esposa,
ni viuda, ni religiosa;
y sin embargo soy
madre, de todos los niños del mundo,
esposa, porque esposé con todos mis amores,
viuda, porque enviudé de penas y alegrías,
religiosa, porque fundé mil Casas con mis versos.
No fui nada y soy algo.
Soldado, porque luché y lucho por la paz,
obrera, porque laboro en mi mesa de papeles,
maestra, porque enseño a los niños a reírse,
modista, porque coso los rotos a la gente,
modesta, mi lujo es el silencio en zapatillas.
Trabajo por mi cuenta
poeta independiente,
para llevar a todos
trozos de paloluz.

Gloria Fuertes